Desde criança a pintura me encantava: guache, lápis de cor, a tinta que estivesse disponível, até “tinta de parede”. Criava narrativas com as imagens que produzia, era como ler livros infantis, as imagens contavam histórias. Em 1975, depois da morte do meu pai, quando tinha 12 anos de idade, acredito que a pintura tornou-se um refúgio. Compartilho essa memória porque não consigo imaginar outra resposta à questão “por que pintura?”, questão dada uma perspectiva linguística, pois pintar vai além da escolha pela materialidade, é um dos meus jeitos de falar. Aos 18 anos de idade, infortúnios impuseram a necessidade de abandonar os estudos e começar a trabalhar em um banco, o qual tomava todo o meu tempo, “silenciando-me” por um longo tempo.

Cursei Artes Visuais, na Universidade Federal de Pelotas, dando início a uma série de autorretratos em diferentes linguagens. Em 2016, minhas obras partiram de reflexões sobre o tempo como uma denúncia de um modo de vida que nos afastava das experiências Ehfarung. Pelas definições de experiência, Walter Benjamin, filósofo e sociólogo judeu alemão, as distingue em: Erlebnis, uma experiência superficial que se encontra entrando na esfera das vivências, e Erfahrung, que faz referência a uma experiência mais intensa, uma transformação pessoal que vem a ser compartilhada, que era incomum na vida contemporânea.

As vivências passadas desaguaram enquanto experiências formativas, fazendo com que me dedicasse fielmente à questão da temporalidade e processo criativo, este foi tema do meu livro, sob o título “A epifania no processo criativo: quando o tempo é outro.”

Tenho a percepção de que meu trajeto passado, não apenas no que se refere ao interesse quando ainda criança sobre as tintas, mas também no que tange todas minhas escolhas experienciais, foram e são fontes que corroboram e norteiam meus processos artísticos atuais.

Debrucei-me em estudos de ordem não apenas técnica, no ramo da pintura, mas também filosófica. Minha obra é livre para instauração de sentidos.

Meus artistas de referência são Paul Cézanne, o qual impulsionou a arte do século XX, Willem De Kooning e Iberê Camargo, os quais percorrem as vias do expressionismo abstrato.

Para mim o processo criativo é epifânico, assim como a obra concluída pode ser motivo de epifania para o observador.

ALMAS DAS RUAS (série)

Memórias distantes de agora, mas vivas em mim e na comunidade onde nasci, Encruzilhada do Sul, uma pequena cidade de aproximadamente 25 mil habitantes. Ao meu ver, suas ruas tinham almas, e são estas que me interessam. Tio Nabuco, "o vendedor de sonhos" da Dona Malvina; Tia Pretinha, “a benzedeira” e amante do carnaval; Seu Florindo, “o carteiro”, homem sério, sabia que carregava tesouros na sua pasta; Mauro Pires, “o pipoqueiro”, também jogava futebol que era uma beleza, e Zé da pipa, “o pipeiro”, entregava água aos lares que não possuiam água encanada, são figuras carismáticas da cidade onde nasci, vivas na memória dos encruzilhadenses e, agora eternizadas em pinturas.

O carteiro, 2021

(Retrato de Seu Florindo)

Acrílica sobre papel de algodão

30 x 21 cm

O nome da rua, o nome da gente, quem mais saberia de cor? Em um tempo em que se ouvia falar “extraviou-se uma carta”, lá em Encruzilhada do Sul não acontecia, Seu Florindo com zelo e seriedade fazia a carta chegar ao seu destino, fosse notícia de morte, fosse notícia de vida, também tinha carta de amor e contas a pagar, às vezes aviso de conta vencida...

A rua passava a ter vida à medida que suas almas transitavam, era assim na minha cidade. As ruas de pedra ou de chão batido eram visitadas pelo carteiro Florindo, sua postura e passos firmes denunciavam que ele sabia a importância do seu ofício, orgulhava-se. Da Vila Mariano da Rocha ao Lava-pés, a caminhada era longa, a responsabilidade era grande, carregava consigo tesouros. Sua mala não tinha chave, mas era muito bem cuidada, afinal guardava os segredos da cidade, até cartas de amores proibidos. Lá vem o Seu Florindo, diziam alguns ansiosos para receber as palavras guardadas em um envelope selado. E por falar em selos... a criançada o atormentava! eu era uma delas.

- Seu Florindo tem um selo para me dar?

- Não crianças, vão brincar!

 A benzedeira, 2021

Acrílica sobre papel de algodão

30 x 21 cm
"Mau-olhado", de "rendedura" a dor de amor, curava o "cavalo" e limpava a alma, abria os caminhos.
Três sextas-feiras, carvão em brasa, um copo d’água, a tesoura e a fé, instrumentos de trabalho. Se o carvão em brasa afundasse e a água turva ficasse, era mau-olhado, mas quem a procurava sabia que na última sexta, o carvão flutuaria em água límpida, e o mau-olhado estaria cortado.
Além de abrir caminhos, Tia Pretinha abria o carnaval nas ruas de Encruzilhada.
Com os passos já lentos, seu corpo frágil era levado pelo seu espírito guerreiro, ao som do batuque pelas ruas da cidade.
Oh abre alas que ela quer passar...

O vendedor de sonhos, 2021

Acrílica sobre papel de algodão

30 x 21 cm

Sobre pintura, minhas escolhas partem das minhas experiências, ora como denúncias, ora como compartilhamento de memórias distantes de agora, mas vivas em mim e na comunidade onde nasci, Encruzilhada do Sul, uma pequena cidade de aproximadamente 25 mil habitantes. Ao meu ver, suas ruas tinham almas, e são estas que me interessam. Tio Nabuco é uma delas, o vendedor de sonhos (Da Vó Malvina) também anunciava a programação do Cine Glória e a partida dos seus conterrâneos. Ia de esquina em esquina chamando a população para a despedida de alguém. Sim, falo da morte, mas não parecia assustadora anunciada por ele, talvez pela doçura e respeito com que exercia o seu ofício.

Orchidarium, 2020

Acrílica sobre papel de algodão

30 x 21 cm

Quisera o homem fosse forte como as orquídeas

Quisera...

Os sorrisos e os sonhos estonteantes se esvaem e não voltam

às vezes por nada, às vezes por um nada que parece tudo.

E tudo desaparece, deixando a dúvida se sequer existiu.

 

 

 

The magic, 2020

Acrílica sobre papel de algodão

30 x 21 cm

Tem gente que fica na vida da gente...

Um gesto, uma palavra que muda tudo

Faz levar um pouco de si para todo o sempre

Simples assim...

 

 

 

Little fortress, 2020

Acrílica sobre tela

45 x 45 cm

Há quem não compreenda

este instante que o homem percebe

o tanto que tem a aprender,

como o mundo pode caber em um abraço?

 

 

The blue haired girl, 2020

Acrílica sobre tela

37 x 43 cm

A primeira vez que a vi

Parecia um passarinho assustado,

Seus cabelos azuis

Eram as suas asas...

Coisas de dentro, 2018 - 2017  (série)

Mais uma vez, meu olho vê de fora o olho olhando de dentro.
Quem és, quem sou?
Assemelha-se a mim, desconheço a ti.
Transforma-se diante de mim, deixando o olho que olhava perdido em um não-momento.
Já não encontro a mim e nem a ti, mas um outro, mescla de nós.

 

Sem título, 2018.

Acrílica sobre tela.

108,4 x 80 cm

Há muito convivo com a dúvida

Não luto mais com ela.

Já conheço os danos

Não consigo evitar.

As coisas e espaços tendem a se misturar mais vezes por dia

Tentei mapeá-los em cor, até criei limites com a cor.

 

Portal, 2018.

Óleo sobre tela. 

79 x 100 cm.

 

Mas a mancha volta impregna tudo a minha volta.

Retomo e assumo então o meu olhar .

Adentrei esse portal na busca da suspensão temporal, sem perceber duvidei até da minha própria existência e, afinal, lá no “não-momento”, que eu me encontrei no nada, onde o tempo apenas está, não foi, não é e nem será, deixando apenas índices da minha própria ancestralidade através da cor. Então, finalmente, “descansei confortável no desconforto do universo...”.

 

E. A. P, 2018.

Óleo sobre tela. 107x73,5 cm.

Releitura a partir do conto "O gato preto" de Edgar Allan Poe.

Epifania II, 2018

Dimensão: 120 x 90 cm

Técnica: Fotografia Digital (impressão em vinil)

Vi essa passagem para o céu... Não havia uma escada que me levasse até lá, mas eu queria mergulhar naquele azul intenso, então decidi trazer o céu pra terra.

Epifania, 2015

Instalação

Madeira, espelhos, fio de nylon.

Cerrei meus olhos,

Descansei confortável

No desconforto do Universo...

Flutuei entre as estrelas, àquelas que eu visitava na minha infância,

Me vi poeira cósmica,

Olhei pra mim, não era nada...

sendo nada, fiz o caminho de volta,

e então eu era único, eu era parte de um todo.

- e dentro do céu, no “avesso do céu”?

Novamente eu me vi lá

Faço parte, meu olho vê de fora o olho olhando de dentro...

Meu olho é côncavo ou convexo?

-  depende de onde se vê.

Quem me vê, quem eu vejo?

Como? Não há resposta,

Ou será que, se sou partícula, somos o infinito?