SPERB, Gisele
Biografia

No Brasil, a década de 60 foi marcada por agitações políticas e sociais. Nesse contexto nasce, em 1963, a artista Gisele Sperb, na cidade de Encruzilhada do Sul, no estado do Rio Grande do Sul. Para a pequena Sperb a liberdade se revelava concreta. Na contramão do cenário vigente, a criança expandia sua imaginação, correndo para a varanda em noites quentes, no intuito de olhar o céu e toda sua imensidão, na companhia dos pais. Ali, contavam e nomeavam estrelas. Para Sperb o tempo e o espaço eram outros, suspensos, porém expandidos e coesos: tempo/espaço.
Nos finais de ano, sua casa era pintada. Momentos timbrados na memória da artista que revelam um tempo cíclico. Sperb pedia aos pintores a tinta, “emprestada”, para que no porão fossem traçadas as primeiras formas.

Podemos entender o porão como lugar de refúgio e, como metáfora corpórea, nossa intimidade, o inconsciente, o que para nós é “privado”. 
“[...] o porão era um lugar que, ao mesmo tempo que me assombrava, fascinava, diante das sombras formadas pelas irregularidades das pedras a mostra, quando expostas à luz, sugeriam formas estranhas. E então, mais uma vez, me via em outro tempo/espaço, talvez outra dimensão?” 
Em 1975, quando Sperb contava seus 12 anos de idade, um acidente de carro levara seu pai. O contador de estrelas se tornaria uma, deixando à pintora a base do caráter e do amor familiar, além de um objeto: um relógio de pulso, que o acompanhava até o último instante. Enquanto "O Relógio já não marca o tempo, os ponteiros se perderam, [...] (p. 28, 2018), a artista precisou rapidamente crescer, porém sem deixar os desenhos. Na pintura encontrou refúgio. A pintura se fez porão. 
No caminho de Sperb, algumas curvas a distanciaram do prazer de pintar. Aos 17 anos ingressara no Curso de Ciências Contábeis, na Universidade de Santa Cruz do Sul, porém logo abandonou.  Em 1985 começou, então, a trabalhar em um banco. Qual a razão para tanta entrega aos números? Por quanto tempo defenderia este ofício? Talvez o relógio de pulso não mais pudesse contar esse tempo, ou o contasse em suspensão.  Em 1990 Júlio, seu filho, nasce. Fato que levou a artista a perceber o tempo através de um novo olhar. E, logo que pode, pôs o filho a pintar, com o desejo que nele brotasse um desejo que era seu. Com o menino dividiu telas e pincéis, reaproximando-se do seu atual ofício e prazer. Em 1992 frequentou o ateliê da artista uruguaia, Paula Moraes, em Pelotas. Momento marcado pela produção de paisagens imersas em constantes névoas – metáfora para a incógnita do destino, o qual reservava à pequena observadora celeste uma imensidão de possibilidades. 
Em 2015, Sperb ingressa no curso de Artes Visuais, na Universidade Federal de Pelotas, dando início a uma série de autorretratos em diferentes linguagens. Em meio aos pares, a artista não apenas aprimora técnicas e estimula o que muitos nomeiam como “dom”, mas também dá o start para uma nova trajetória artística.
As vivências passadas desaguaram enquanto experiências formativas, fazendo com que Sperb se dedicasse fielmente à questão da temporalidade.
“Tenho a percepção de que meu trajeto passado, não apenas no que se refere ao interesse quando ainda criança sobre as tintas, mas também no que tange todas minhas escolhas experienciais, foram e são fontes que corroboram e norteiam meus processos artísticos atuais” (p. 27, 2018).
Para tanto, a artista debruçou-se em estudos de ordem não apenas técnica, no ramo da pintura, mas também filosófica. Como autores guias (artistas e teóricos), Sperb elenca uma série de nomes:
“Kátia Canton, escritora e artista visual paulista, que aponta considerações sobre o conceito de tempo na contemporaneidade, e embasa-se em importantes teóricos, como o filósofo francês Paul Virilio; Zigmunt Bauman, sociólogo polonês, para discorres sobre a “Modernidade Líquida”; Teixeira Coelho, pesquisador e crítico de arte, por seus escritos sobre a historicidade de retratos na arte; Marco Gianotti, pintor e professor, para tratar de questões da pintura contemporânea; e Walter Benjamin, ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão, pelas definições de experiência, utilizando os temos da língua alemã Erlebnis e Erfahrung para pensar nestes dois conceitos. Ao referir-se a experiências, Benjamin as distingue em: Erlebnis, uma experiência superficial que se encontra entrando na esfera das vivências, não gera transformações impactantes na vida, é rapidamente perdida na memória, comumente presente na vida contemporânea; e Erfahrung, que faz referência a uma experiência mais intensa, vivida com maiores sensações e de maior impacto na vida, uma experiência de fato vivida e memorada, uma transformação pessoal que vem a ser compartilhada, incomum na vida contemporânea. Além desses autores, num movimento de busca pela poética de meu próprio trajeto e processo criativo, fui até ‘O Livro dos Símbolos’, de edição de Kathleen Martin, editora americana; no ‘Dicionário de Símbolos’, de Jean Chevalier, escritor, filósofo e teólogo francês e Alain Gheerbrant, escritor, editor, poeta e explorador francês; e no livro concebido e organizado por Carl G. Jung. Psiquiatra e psicoterapeuta suíço, intitulado ‘O homem e seus símbolos’, o qual ajudou nas noções de self. Esse último bloco de autores possibilita, também, uma amplificação de sentidos que liberta a obra para toda e qualquer vivência.” (p. 25, 2018) 
A artista reúne em seu trajeto formativo os mais variados tons de uma teoria que lhe possibilite fuga de toda e qualquer delimitação. Na busca por uma noção espaço-temporal, Sperb procura a flexibilidade conceitual, o que converge com sua obra que, em feitura, transmuta o próprio tempo e espaço. Da mesma forma, sua obra não está condicionada às motivações de sua produção, mas livre para a instauração de sentidos numa imensidão de possibilidades. Ainda, como referência artística, a artista tem como base Paul Cézanne, o qual impulsionou a arte do século XX, Willem De Kooning e Iberê Camargo, os quais percorrem as vias do expressionismo abstrato.
Assim, o momento de realização da pintura é, para Sperb, epifânico; tanto como a obra em si, concluída, pode ser motivo de epifania a outrem. Para o antropólogo Gilbert Durand, a epifania é a aparição de um sentido para sempre abstrato. 
Atualmente, mora em Porto Alegre, RS, Brasil, onde dá prosseguimento ao compartilhamento de suas experiências temporais por meio de suas obras artísticas. Em distintos processos – fotografias, instalações e, principalmente, pintura – o trabalho de Sperb explora a não obviedade, as incertezas, os intervalos, o “entre”.
Para onde vamos quando os ponteiros param?

 

Alexandre da Silva Borges

Doutorando e Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel)
Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Imaginário, Educação e Memória (GEPIEM)
Bacharel em História pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG)/Património Cultural e Arqueologia - Universidade do Algarve (UAlg - Portugal)

alexandreborgesh@gmail.com

 

 

Referência bibliográfica
SPERB, Gisele Teixeira. A epifania no processo criativo – quando o tempo é outro. Trabalho de Conclusão de Curso, (Graduação Em Artes Visuais) – Centro de Artes, Universidade Federal de Pelotas, 2018.

 
2010 - presente
2010 - presente

Eventos

Para Fazer uma Exposição – 2020. 
Escola Nacional de Administração Pública, ENAPE, Brasil.

Mostra de Arte Contemporânea PORTAS ABERTAS – 2018

Saguão da Biblioteca de Ciências Sociais da Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Brasil.

Curadoria: Artistas Expositores.


PROCESSOS – 2018

Espaço de Arte Chico Madrid da Sociedade Científica Sigmund Freud, Pelotas, Brasil.

Curadoria: Eduardo Soares Devens.


Os Antônimos e o Branco que os acolhe – 2018

Centro de Artes, Pelotas, Brasil.

Curadoria: Duda Gonçalves.


O Gato Preto - Edgar Allan Poe – 2018

Café da Cátia, Pelotas, Brasil.

Curadoria: HAndre Barbachan.


Vértice Comum Exposição – 2018

Campus Anglo, Pelotas, Brasil.

Curadoria: Kelly Wendt.


​Exposições de Arte no Ambiente Virtual 3D do VGRI

UFPel: 2ª Exposição. Ambiente Virtual VGRID – 2017 e 2018

Universidade Federal de Pelotas.

Curadoria: Juliana Angelli.

1ª Mostra de Processos Criativos – 2015

Livraria da Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Brasil.

Curadoria: Renata Job.

Curso de Fundamentos de Áudio-descrição - Módulo I.
Universidade Federal de Pelotas, UFPEL, Brasil.

IV Encontro História, Imagem e Cultura Visual ANPUH-RS. 2017.

 

Exposição

Mostra de Processos Criativos. Epifania – 2015.

 

Workshop

Atos de Fazer, Observar, Caminhar, Visitar, Ler e Expor o Desenho. Pressa – 2015.

Seminário

IV SPMAV - UFPel: Convergências na Arte Contemporânea – 2015.

Workshop

Objetocoisa: Reflexões sobre a Criação, Produção, Percepção e Experiência.Livro de Artista – 2015.

© 2020 por Sperb, G

  • Preto Ícone Instagram